TIP Talk: faz sentido limitar o crescimento do Turismo em Portugal?

«Os portugueses querem turismo sem turistas.» Quem o diz é Adolfo Mesquita Nunes, advogado e ex-secretário de Estado do Turismo. Presente na mais recente TIP Talk organizada pela Marketeer, afirmou que a população, pelo menos na sua generalidade, gostava de ter o que o crescimento que o turismo proporciona (manutenção dos museus e oferta cultural alargada, entre outros) mas sem os potenciais inconvenientes que os turistas podem trazer (barulho, confusão nas ruas e descaracterização das zonas históricas).

Posto isto, existe uma forma de limitar o crescimento do sector e do número de turistas? No evento de ontem, realizado sob o mote “TIP On Targeting – há turistas a mais em Portugal?”, esteve também presente o chef José Avillez, segundo o qual a excelência é o único caminho possível. Se elevarmos a qualidade dos serviços prestados, poderemos encontrar uma espécie de «selecção natural do turismo». O chef considera que existem menos pessoas à procura de excelência, devido ao preço mais elevado, por exemplo.

Adolfo Mesquita Nunes concorda que o foco deve estar na qualidade, mas acredita que não podemos querer para Portugal o título de “país premium”, até porque «os hotéis até podem targetizar os clientes, o País inteiro não». Para o ex-secretário do Turismo, há espaço tanto para um hotel de 3 estrelas com para um alojamento local ou um resort de 5 estrelas, desde que cada um deles tenha a qualidade necessária.

Neste ponto, José Avillez acrescenta que, de facto, é preciso ter em conta que existem vários tipos de turistas, com vontades e objectivos diferentes. Antes de tudo, turistas mais novos têm tendencialmente menos disponibilidade financeira para optar por uma oferta de alojamento e restauração, entre outros, mais cara. Por outro lado, poderá ser apenas uma questão de prioridades: gastar mais em experiências de lazer e menos no voo, por exemplo.

É por isto que Adolfo Mesquita Nunes tem dificuldade em determinar o que é um “turista premium”. A roupa que determinada pessoa usa ou o sítio onde escolhe ficar não é representativo do valor que vai deixar no País que visita.

Esta é precisamente outra das motivações para a não limitação do crescimento do turismo. O dinheiro que os turistas, nomeadamente estrangeiros, deixam nas cidades por onde passam tem permitido alargar a oferta. O chef José Avillez refere mesmo que existe uma relação causa-efeito, entre o crescimento dos dois pontos. «Se os turistas desaparecessem, passaria de seis restaurantes em Lisboa e um no Porto para apenas um em Lisboa e um no Porto.»

Por números: em termos de número de pessoas, a proporção de clientes portugueses e internacionais nos restaurantes do Grupo Avillez é de 50-50; porém, no que respeita à facturação média, a proporção já é de 75-25, com os estrangeiros a liderar

«O caminho não é parar. É evoluir e melhorar sempre», conclui José Avillez. Ambos os convidados concordam que não existem turistas a mais em Portugal e que estamos de longe de atingir uma eventual capacidade máxima. Não faz sentido limitar a chegada de turistas ou a construção de novos negócios no sector. Faz sentido, sim, controlar as circunstâncias em que são desenvolvidos e a qualidade que apresentam.

«Não podemos fechar fronteiras. Não podemos seleccionar os turistas que queremos. A questão é mais: como nos podemos adaptar a este fenómeno de crescimento», resume Adolfo Mesquita Nunes.

Texto de Filipa Almeida

Fotos de Paulo Alexandrino

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